ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A OBRA

DE

TERESA BERNARDINO / TERESA FERRER PASSOS

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO A PLANETA JOYCE 8*

 

 

"In many local literary communities, or in communities constituted through a common literary language, the question of globalisation is all too often seen by some writers as the battleground of important national  discursive identities, national traits, values, traditions and cultural borders against an invading ready-made, consumerist and integrative culture. Within this framework, globalisation frequently becomes synonymous with a commoditized technological and ideologically unifying civilisation conveyed through English language"

A. Pennycok, 1994

 

 

 Parece que há ainda um conhecimento em busca de si próprio e sinais minúsculos encadeiam-se,  de modo labiríntico, para o descobrir"                    

Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8, pág.21

 

I

(...) João Barrento tem falado de uma nova categoria em que teria encontrado a ficção portuguesa: o Realismo Urbano Total - um tipo de literatura que tem por missão contar uma história "com pessoas iguais às pessoas que a gente conhece", segundo os "modelos da vida tal como ela é", e com uma forma de escrita que se limitaria a transpor a expressão quotidiana e que se caracterizaria acima de tudo pela total falta de estilo. Estaríamos assim no lado contrário daquilo que Mallarmé considerava ser a literatura - "a universal reportagem". Há formas de localismo que se aproximam de formas de "Terceiro-Mundismo". A insistência na 'pureza local', de acordo com o argumento convincente de Arif Dirlik, "pode bem servir como desculpa para um revivalismo reacionário com as mais antigas formas de opressão (A. Dirlik, 1996: 36). Porque a melhor literatura foi sempre aquela que tem como casa o mundo, e que melhor articulou a memória local e global, permitindo que o local se torne global na sua capacidade para representar as múltiplas dimensões da existência humana.

 

II

 

Teresa Ferrer Passos escreve para lá desse Realismo Urbano Total, consciente de que uma nova ecologia cognitiva está às portas. O seu gesto poético realiza como que um novo Convivium em que comparecem a ciência, a literatura e a filosofia. Intervêm neste Planeta Joyce 8 tanto um planeta de formação recente (Planeta Joyce 8, p. 47) como o matemático de fractais em dispersão H30, como o físico de partículas do micro-tempo R4, numa mistura de vozes verdadeiramente impressionante. A associação entre novas tecnologias e progresso unifica vozes muito diversas: negócios e escritores da imprensa diária; governo e a arena do espaço público, manifesto pós-modernistas e ciberfeminista, televisão e documentários científicos; e o mais espectacular entretenimento oferecido pela ciência ficção. É preciso dar fala ao tempo, ao malmequer, à estrela, à carta C2. Devolver à experiência o seu ritmo, o seu peso, o seu espírito crítico.

 

Teresa Ferrer Passos propõe um cenário em que várias figuras encarnam essa luta contra a globalidade e contra a vigilância superior (Planeta Joyce 8, p. 33). Daí a revolta anunciada de cada um dos Estados da Revolta Unitária (Planeta Joyce 8, p. 81) contra a prepotência do poder mega-tecnológico (Planeta Joyce 8, p.152) por parte das vítimas da globalidade. Como é sabido em narratologia, não há programa, estratégia ou acção senão como colmatagem de uma falta, como reparação de uma falta. “As populações do Império Global” perderam as antigas qualidades neuro-mentais (Planeta Joyce 8, p.153). O amesquinhamento da “humanidade”, a abulia, é por demais visível. O Planeta Joyce 8 alerta para algo que se está processando: as tecnologias de ponta estão a alargar o abismo entre os info-ricos e os info-pobres. Um dos efeitos mais nefastos das novas tecnologias é a desmodalização dos sujeitos. Agir é decidir. De onde vem essa decisão? Do Planeta Joyce 8. É ele o portador de uma intenção revolucionária contra o núcleo mais importante da rede ZN4. Vejamos as personagens: a Estrela 4000 b é a personagem que dialoga com a ZN4, o ecrã mágico da rede computacional, o Tempo 01, e a Carta C2, a que se junta o Cometa kk Down, o biólogo N7. Nisto, a autora compreendeu perfeitamente que a arte em geral é aquilo que tenta temporalizar de outra forma, que faz com que o tempo da consciência do eu seja sempre diacrónico e que liberte o imprevisível da sua singularidade num nós através da mediação da linguagem como potência.  

 

As tecnologias electrónicas são responsáveis pela “implementação das “sociedades de controlo” e pela criação do conceito de life time value forjado pelo marketing para concretizar ao máximo a exploração industrial e sistemática da experiência individual, transformando-a num condicionamento integralmente controlado”[5]. Trata-se de uma guerra. Os cidadãos cibernéticos, a população que vive sob o controlo do Império da globalidade e que está a provocar é convocada para combater a uniformização mental a que está a ser submetida: “Mas o que me atormenta mais é a insensibilização generalizada... que ninguém se apercebe de que o ser humano se transformou numa tecné-anti-mentalis” (Planeta Joyce 8, p. 139). O perigo é a uniformização mental dos seres. A Estrela Pólux 52 coloca assim esta questão: “as sociedades do Império só consomem aquilo que não tem interrogações, porque só entendem o excessivo da visibilidade” (Planeta Joyce 8, p. 160). A questão é a do habitar, ligada a uma outra: a do controlo e da domesticação. No Império da globalidade despreza-se o valor da liberdade e “Cada vez há menos espírito crítico” (Planeta Joyce 8, p. 136).

 

Escrever é singularizar-se. Teresa Ferrer Passos escreve em nome da criatividade, contra a imitação, a literaturazinha de bairro que se lê. Não faltaria quem a acusasse de utilizar a metáfora ao serviço da ciência, a física neste caso: “E nas palavras todas direcções são espaços vazios em que buracos negros se acumulam e, afinal, até estes só podem ser matéria viva, movimento...” (Planeta Joyce 8, p. 25). Mistura-se a alquimia das palavras com a química e a física: o silêncio como uma luz de cinzas ou uma intocável esfera da vida. Contra o silencio, o ecrã. A atracção já não vem da memória do fogo, mas do ecrã. O resto é efeito de diálogos de sons, de vozes, de imagens. É interessante que a autora compare o ecrã a um templo, como se a multidão esperasse a epifania de um deus. Aqui o silêncio é absurdo.

 

Embora persista a noção de “verdadeiro eu”, ainda nimbada da carne que a reveste, a nova tecnologia abriu as portas para novas subjectividades radicalmente desencarnadas. É certo que os romances de Gibson nos chegam carregados por influências tão diversas como os romances clássicos: Frankenstein, The Big Sleep, a literatura vanguardista representada por William Burroughs, Thomas Pynchon e Kathy Acker, a ficção científica de Philip K. Dick, Michael Moorcock e J.G. Ballard, as análises culturais de M. MacLuhan, Baudrillard, Deleuze e Gauttari, a filmologia de Cronemberg, a música de Velvet Underground, etc. Nos escritos de Gibson (1984: 12) percebe-se um certo desprezo descontraído da carne que é vista como “the meat” (“de talho”) por aqueles que estão dependentes da “vida” na “matriz”. O discurso de desencarnação tem um lugar central quer nos escritos do romancista “cyberpunk” William Gibson ou de Marge Piercy, quer da feminista Donna Haraway.

 

Ora, é contra a desencarnação que Teresa Ferrer Passos escreve. Contra o roubo da palavra e em nome da vigilância, contra aquilo a que chama o “espírito” ou o “mistério”. B. Stiegler, que escreve de um horizonte materialista, não reivindica, paradoxalmente, outra coisa. Não declarava Foucault, na lição inaugural do Colégio de França que era urgente “fazer uma análise materialista do imaterial”? O escopo da nossa autora parece ter sido atingido: a sua análise materialista do imaterial revela a miséria simbólica em que o Império nos afunda. O intelectual deve habitar o sítio duma arte exigente, resistente, intransigente, domínio em que não podemos nem retirar-nos nem propor soluções. Fatalmente ideólogos porque "todos embarcados"?

 

José Augusto Mourão

 


[1] Italo Calvino, Punto y Aparte, Tusquets, Barcelona, 1995, 113.

[2] La communication-monde. Histoire des idées et des stratégies, La découverte, Paris, 1991.

[3] E. Couchot, M.H. Tramus, M. Bret, « A segunda interactividade. Em direcção a novas práticas artísticas”, in  Arte e vida no século XXI, (org.) Diana Domingues, UNESP, 2003, p. 27.

[4] Op. cit, p. 32.

[5] Bernard Stiegler, De la misère symbolique I, Paris, Galilée, 2004, p. 166.

 

*Prefácio do Professor Doutor Frei José Augusto Mourão à obra Planeta Joyce 8 (romance), 1ª edição, Harmonia do Mundo, Lisboa, 2007.

 

 

 

 

 

 

 

META-GLOSA SOBRE A ANUNCIAÇÃO[1]

 

 

“Ecrire, c'est écrire contre, comme ‘écrire tout contre'
et comme ‘écrire autre chose'”
(Paul Beauchamp)

 

«Un palimpseste, gratté et regratté, où Beatus ne reste pas l'objet
d'une rigoureuse philologie textuelle, mais devient un accélérateur
de questions et un prétexte pour passer du texte
à ceux qui ont été influencés par lui, même sans l'avoir jamais lu».
(Umberto Eco)

 

 

 

 

(...)

 

Que é escrever?

 

P. Beauchamp tem uma resposta admirável: “celui qui écrit soulève une dalle. Le débat est celui de l'homme avec tout commencement et d'abord le sien propre : passer la barre de l'oubli ou la déplacer…Écrire ajoute aux paroles le noir de l'encre, ce noir qui fait tache avant de faire signe [6]. Escrever, como falar é expor-se, é arriscar-se. “Ècris un mot si tu l'oses”, escreve Apollinaire. E diante do escrito, a pergunta imediata é esta: quem escreveu tal coisa?, entenda-se, quem se atreveu a escrever isto? E diante do escrito, como diante de um grafito, ninguém pode esquivar-se a dizer: “fui eu”. Será um crime escrever? Afinal, no fim do Fedro, Sócrates trata da escrita para lhe mover um processo.

 

Escrever é retomar, como o estudante que revê os trabalhos de casa; como quem preenche algo que faltou dizer, escrever. Teresa Ferrer Passos arrisca, em Anunciação, uma palavra nova sobre as versões quadripartidas dos Evangelhos. A autora, podíamos dizer, a artista, escrevendo, desarruma uma ordem, um cânon, já existente, acrescentando ao já escrito uma outra forma, segundo a lógica do trabalho que modifica o mundo, alargando-o. Nós fabricamos signos e os signos fazem-nos. Este não é um livro sagrado, é um romance que conta a humanidade de Deus a partir do olhar de uma mulher, a escritora, primeiro, e intra-diegeticamente, a partir de Maria. Esse é o desafio maior desta obra. Não se responde a um romance com a teologia ou com a exegese.

 

O Natal, num romance, tanto pode ter sido numa gruta do Mar Morto como em Nazaré ou em Belém. Importa é o gesto que traz o sensível que a narrativa oculta. Arriscar é o que recomenda Fr. Agustín Salucio (1523) que escreve, no seu Avisos para los predicadores del Santo Evangelio, “bien que mirados los evangelios del año, de santos y de tiempo, se haga como un quinto Evangelio, de todos cuatro tomado, sin que le falte cosa notable de todos ellos y sin repetir notablemente lo ya dicho, son es cuando la misma lección se refiere en diversos días por alguna justa causa” [7].

 

 

Um quinto evangelho?

 

Uma religião que não aparecesse no horizonte do mundo sem o anúncio de libertação, não seria uma religião. O capital simbólico de uma religião vem-lhe do Messias que propõe. Por mais que a nossa sociedade técnico-industrial proponha um mediador neutro universal, plataformas abertas, protocolos; por mais que o desencantamento cresça. Até os mais lúcidos pós-modernos se deram conta disso e procuraram dissimular a sua descoberta por trás dos ecrãs de abstracção, como por exemplo, a “messianidade abstracta” inerente à linguagem, de que fala Derrida [8]. “Ele veio para libertar” (253) resume este livro. A figura do Messias está em todos os sonhos e visões que povoam Anunciação. A palavra é de si aberta à transcendência, é messiânica, como escrevi algures. A maior singularidade deste livro está, a meu ver, na reintrodução da carne como “gonzo da salvação” (Caro salutis cardo, dizia Tertuliano). Contra a desincarnação crescente, contra a retenção quaternária. Contra o gnosticismo crescente que até a IA promove.

 

 

O tempo da glosa

 

A Bíblia é uma escrita a ler. Que pode a narrativa evangélica, nas suas múltiplas versões, contra o fim das narrativas? O fenómeno da elasticidade do discurso põe em jogo a relação conhecida em linguística: expansão vs condensação. Releva desta elasticidade a construção dos resumos que supostamente nos dão, de modo abreviado, o equivalente de um longo discurso. O Beatus de Liébana, publicado em Milão em 1973, depois em França em 1982, na Franco Maria Ricci, em “Les signes de l'homme”, a partir do manuscrito do fim do século XI, é um manuscrito medieval espanhol do fim do século VIII, ilustrado com miniaturas e que comenta o apocalipse de S. João. A propósito, Eco publicou “Palimpseste sur Beatus”. Esse é um livro feito de glosas ou ilustrações, proliferações de outros textos gerados por um texto primeiro, paráfrases, adaptações ou interpretantes, para utilizarmos o termo de Peirce, de que o seu é o último.

 

Em que estado de espírito se deve colocar o leitor: visionário, filológico, ou ainda exegético, como se o sentido do texto fosse fixado pela autoridade da tradição? Teresa Passos glosa sobre uma glosa. O texto de Mateus é do género midrash, que tenta traduzir as palavras do Antigo no Novo Testamento, ligando assim, por meio da interpretação, a vida de Jesus ao corpo de textos em que o seu corpo lê e interpreta Deus, o mundo, o homem. Anunciação é um romance. Entenda-se um modo de dizer “como se”, sem que o fantasma do referente venha pedir contas pela veracidade do relato. E o “ser como” pressupõe um “ser com”, uma co-presença. “Se o cum designa o “semelhança” na imagem (o traço comum), que traduz a palavra como, denota também a “partilha” dum lugar (seja um espaço comum), que visa o prefixo co – ou a advérbio com [9]. A escrita não é apenas uma "arte demonstrativa": é uma arte de laboratório e de alquimia. Uma arte de ligações.

 

Este é um livro de ligações, de sobreposições de lugares e de personagens, que desrealiza (ou realiza de outro modo) a narrativa que nos habituámos a ouvir. A autora sabe, como nós, que não se lê nem se escreve para reter o que quer que seja da realidade – como se diz dum filho – mas para a perder na linguagem, que a recobre para lá das filiações, no acto de semear o fruto do que o sopro em cada um diz de escrever. O Evangelho não é de ninguém, melhor, é de quem o apropria e lhe dá carne.

 

A Rosa de Ninguém de Paul Celan é a melhor forma de devolver à Boa Nova a sua ressonância, o seu efeito de individuação. É preciso dizê-lo. Teresa Passos lê os Evangelhos sem querer explicar tudo, como nem Mateus nem Lucas o quiseram, sem qualquer preocupação de exaustividade hermenêutica. Ela sabe que a hermenêutica é uma opção interpretativa. E a sua opção é nitidamente “cordial”, “maternal” ou lírica. A sua leitura não é unívoca nem canónica. Este não é um livro à semelhança de A Paixão de Jesus Cristo, de Catarina Emmerich (1774).

 

A Paixão nunca é descrita. O género a que este livro se liga é, evidentemente, apocalíptico. Ora, num livro apocalíptico é difícil separar a escrita da visão. Este livro é um livro de visões. De interiores. Um palimpsesto[*]. De dentro irrompe o mistério do nascimento, do amor que liga Maria a José, aqui uma personagem afectiva, tímida, que o medo e a inquietude e o não saber marcaram. À figura do “herói”, Jesus, opõe-se a figura do adversário, Herodes, que ocupa um lugar central no livro. Também as figuras do poder sacerdotal têm papel de destaque. E será do meio da figura emblemática do Templo que o mais prodigioso sinal de Jesus terá lugar: a ressurreição de Hazael (210). A atracção pelos Essénios, por essa facção de “puros” que cortaram com o fariseísmo mais oficial, é neste livro, um índice dessa fuga do lugar do poder que particulariza, impedindo a singularização. O poder não suporta os “misterismos”, nem os sonhos nem as visões. Porque esses são mundos que não conseguem gramaticar, controlar.

 

 

Coda

 

A nossa carne é a linguagem, e o Messias é a palavra, escreve V. Novarina [10]. A salvação do ser humano está no facto de ele falar, de ele ser um ser de linguagem, um ser político inscrito numa rede de palavras em que circula como numa praça pública. A figura emblemática de um tal lugar é a árvore de palavras que se encontra nos países de África. Navarina escolheu a amendoeira como a árvore por excelência: a Amygdalus, que nos lembra que as nossas amígalas tiram o seu nome da sua forma em “amêndoa” (em grego amugdale, em hebreu, shaqad, do verbo shoqéd que quer dizer “vigiar”). Os seus frutos têm a forma de olhos: vejo um ramo de “vigia”. Escrever é criar uma comunidade de sentimento, um espaço de pura memória. A inscrição numa tradição singulariza. Nós somos homens e mulheres de advento. Cumpre-nos vigiar, como a amendoeira.

 

O Messias é a palavra em movimento. A vir. Este livro lembra que os afectos são o chão da comum humanidade nossa e do Verbo que se fez aquilo que nós somos: carne habitada pela palavra. Maria é uma rapariga a quem a presença de José perturbava, fascinava. A cena do casamento em Caná reporta-nos ao Cântico dos Cânticos. O verbo latino testari, na origem da palavra testamento designa como cada um sabe o próprio facto de “testemunhar”: o “testemunho” que dá testemunho da comunicação entre os corredores passando de mão em mão como as palavras passam de boca em boca nessa cadeia de transmissão que é a palavra humana.

 

Há um fundo de retenção (secundária) essencial à leitura. Depois de lido um livro, fica a questão: que diz este livro? A síntese, a unidade é trabalho de cada leitor. O combate hoje é contra o domínio da retenção terciária que visa controlar os processos de individuação. Aproxima-se uma nova era de gramatização que visa o controlo do vivo e a clonagem do espírito. O maior perigo é a clonagem mental, espiritual, que coincide com o controlo da actividade simbólica. Ora, o que é preciso é produzir de novo do simbólico.

 

E a literatura pode ajudar nesse combate. Podíamos reagir ao romance de Teresa Passos deste modo: “Evangelhos já temos que cheguem e bem díspares são”. Veja-se o que deu a posteridade do Apocalipse de onde nasceram mais variações heréticas que qualquer texto bíblico. Eu diria: a tradição não é tudo. O nosso processo de individuação é imparável, imprevisível. A escrita faz parte desse processo. O caminho está na expressão permanente daquilo que move tudo o desejo. E não é verdade que Divina eloquia cum legente crescunt?

 

                                                                                                                                        José Augusto Mourão


 


[1] Teresa Ferrer Passos, Anunciação (romance), Universitária Editora, Lisboa, 2004.

(...)

[6] Paul Beauchamp, L'un et l'autre Testament 2., Paris, Seuil, 1990, p. 76.

[7] Fr. Agustín Salucio (1523) escreve, no seu Avisos para los predicadores del Santo Evangelio, Juan Flors, Editor, Barcelona, 1959, p. 137.

[8] Esta abstracção recebe nomes diversos segundo os sistemas, mas até os mais cépticos devem decidir-se a este respeito. Derrida pensa poder responder a esta questão por vezes dolorosa sobre a significação inventando um “messianismo abstracto” – uma espécie de “apelo à fé” que habitaria “qualquer acto de linguagem e qualquer apelo ao outro”: J. Derrida, “Foi e savoir” in La Reliuion , Seuil, 1996, p. 28. G. Steiner dirá: “O signo semântico, quando tomado como plenitude do sentido, e a divindade” têm o mesmo lugar e o mesmo tempo de nascença” (Derrida) (..). A época do signo, diz Derrida, é essencialmenmte teológica” Présences Réelles , Faber and Faber, 1989.

 

[*] Palavra de origem grega que significa riscar de novo. Na Idade Média para poupar o pergaminho, raspava-se o que que estava escrito e escrevia-se por cima um novo texto, ainda que o primeiro nunca ficasse completamente removido. Historiadores enxergam diferente, pois vêem o mundo com os olhos no passado. Este é um olhar que é capaz de presentificar uma ausência, vendo o que outros não vêem, enxergando nas marcas de historicidade deixadas pelos homens de um outro tempo a vida que habitou nelas um dia. Historiadores devem ser mesmo capazes de buscar a palavra onde há silêncio, de encontrar o gesto onde se regista a ausência. O palimpsesto é uma imagem arquetípica para a leitura do mundo. 

[9] Pierre Ouellet, Le sens de l'autre. Éthique et esthétique , Liber, Montréal, l2003, p. 166.

[10] (3) V. Novarina, La chair de l'homme, Paris, POL, 1995, p. 470.

 

 * Apresentação do Prof. Doutor Frei José Augusto Mourão do romance Anunciação de Teresa Ferrer Passos no Anfiteatro da Livraria Escolar Editora, no Centro Comercial Caleidoscópio, em Lisboa, 27 de Novembro de 2004.

 

 

 

A propósito do romance O Segredo de Ana Plácido (1ª ed. 1995) de Teresa Ferrer Passos:

 

 

1

 

 De uma carta do Embaixador A. B. Mendes Cadaxa*

(datada de Nova Friburgo, 10/8/1998)

« (...) O livro possui, a meu ver, grande mérito literário por sua originalidade e pela profunda análise psicológica dos personagens, cujos conflitos e tempestades interiores não desmereceriam a pena de um Dostoiewski (...)»

 

* A. B. Mendes Cadaxa nasceu, em 1917, em S. Paulo. Recebeu, em 1997, o Prémio Nacional de Poesia do PEN Clube do Brasil e o Prémio Jabuti.

 

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2

 

Da Apresentação na Biblioteca Municipal de Setúbal em 22/11/1995* por Maria Eduarda Faria da Rosa**

« (...) Este livro é construído labirinticamente à volta da ideia de um "crime". À medida que Jorge se interroga sobre quem é num permanente monólogo interior, vai contando, em analepses, os factos mais importantes da sua família e visionando (prolepses) acontecimentos posteriores. Este monólogo interior que conjuga consciente e inconsciente num universo temporal e espacial descontínuo faz o seu aparecimento em discurso directo, indirecto e indirecto livre (...) A problemática do ser que é contínua busca de entendimento para Jorge sobre a sua própria existência e a dos pais, obriga o leitor a entrar em si duma forma mais íntima e profunda também. Ana não pretende parecer, ela é. Mas como mulher inserida naquela época, falta-lhe a persona necessária à sobrevivência (hoje ainda bem necessária). Jorge e Camilo arranjam a máscara : uma sábia máscara da parte de Jorge, extremamente lúcido mas que aceita passar por louco. Camilo, bem mais frágil que Ana, disfarça-se, procura-se nas personagens dos seus romances (...)»

* Publicado em «Arca do Verbo» in O Setubalense (6/12/1995).

** Maria Eduarda Rosa nasceu na ilha do Faial, Açores. Licenciada em Literaturas Modernas e Mestre em Literatura Comparada, é poetisa, ficcionista e pintora (pseudónimo MER).

 

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3

 

Da Apresentação* na Universidade Lusófona de Lisboa pelo Embaixador Dário Moreira de Castro Alves**

 

«(...) Os monólogos e citações de Camilo e Ana povoam os instantes das buscas alucinadas de Jorge, que seguem e prosseguem como num processo kafkiano. Ao final, batidas incessantes insistem para que ele, Jorge, abra a porta, ele a quem o doutor Júlio de Matos diagnosticara como insano incurável mas que se considerava «cada vez mais lúcido»! Bastava ler as obras de Camilo – e ele dizia que as havia lido – para ver e ler a palavra crime. Nada do que leu trancado naqueles três dias, nada deu a Jorge um simples indício do que era esse tal crime. A própria biblioteca estava contra ele, como os demais. O coto da vela que reacendeu, deixou-o cair sobre um livro, Amor de Perdição. Réstias de labaredas diminutas, brandas. Leva à janela as folhas com as notas que escreveu durante os três dias de seu cativeiro auto-imposto. (...)

O livro de Teresa Ferrer Passos é um extraordinário e incrível exercício. Sobre um matriz de factos, sobrepõe um molde com os recortes adaptáveis a esses factos. Sobre a superfície lisa e inteiriça do molde, há um mundo de desenhos da imaginação – mas da imaginação e da criatividade atribuídas a um «louco lúcido» e manifestadas em linguagem pulcra, acutilante, fina e florente (...).»

* Publicado no Suplemento «Cultura» do Diário de Notícias em 25/1/1996

** Dário Moreira de Castro Alves nasceu em Fortaleza  (Ceará) em 1927. Diplomata de carreira, ensaísta e tradutor, foi premiado pela Fundação Casa da Cultura de Língua Portuguesa (Portugal/2001) e com a medalha Pushkin (Rússia/2003) por sua dedicação à literatura. Faleceu em Fortaleza em 2010.