Teresa Bernardino / Teresa Ferrer Passos

 

CADERNINHO II

(de alguma poesia publicada)

 

 

 

 

«A BODA» – OPUS 83* 

 

de mansinho crescem

os sorrisos  ténues

os mais simples sons

da boda do nosso amor…

                             

insistir na tecla de mil e um afectos

dá-me a melodia forte

de  todas as palavras

da boda do nosso amor…

 

nas vagas mais largas

há  um mar revolto

e surgem tantas harmonias

da boda do nosso amor…

 

um ritmo novo e largo

uma nova vida

trazes alma e gesto

da boda do nosso amor…

 

a festa sem fim

os ímpetos selvagens

descobrimos em cada dia…

da boda do nosso amor…

 

                                                 Teresa Ferrer Passos


* Poema inspirado na composição musical «A Boda» OPUS 83 de Jorge Salgueiro in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Novo Álbum de Amor, Universitária Editora, 2005, Lisboa, p.113.

 

 

 

 

 

PROCURA

 

Procurar, procurar, mais procurar,

eis a senda que tracei na infância da minha infância.

Cinzelo, volume, desenho opaco

construído no azul, no negro do universo.

Azáfama ruidosa, intransponível,

construída na lentidão dos anos.

Tortura vertiginosa da idade,

jaz no cemitério do meu desejo,

jaz sem contornos, olvidada, submissa

nas vias sem regresso do meu destino!

 

                                   Teresa Bernardino

 

 

 

Fonte: Teresa Bernardino, Asas no Poente, Lisboa, 1987, p. 24.

 

 

 

 

JÚPITER

 

Onde deixaste o calor da lava antiga

oh Júpiter planeta extasiado audácia

de silêncio finíssima poeira e areal?

 

Explodindo em partículas de carbono e hidrogénio

Foste cápsula de fogo farol ou caverna de falcão.

Agora és a pacata visão nas órbitas de teus satélites.

 

Imagem de juventude de anos aos milhões

ignoras o deus-tempo a falsa maquinação

de quiméricas origens ou amanhã de extinção.

 

Não tens tangentes nuvens no céu

chuva lamento florido campo mar pacífico.

És a gélida vivência-solidão entre astros semelhantes.

 

Em viagem sem regresso giras em redor de ti

não precisas de atmosferas de livros ou de palavras.

Teu gesto círculo veemente – é já vida totalmente.

 

                                          Teresa Bernardino

 

 

 

Fonte: Teresa Bernardino, Universo, Lisboa, 1991, p. 17.

 

 

 

 

MULHER

 

Mastro solitário. Celestial nau.

Brisa refrescante. Rocha sem idade.

Braço repousante. Água transparente.

Fúria de viver. Turbilhão de cidade.

Relâmpago

no céu mais negro

corola

de papoila abandonada

fogo ardente

na eterna madrugada

grito estridente

na noite cerrada.

Arma vibrante

ramo possante

luz de farol

bosque compacto

pórtico de quartzo

rua de marfim

catedral sem fim

... folha verdejante a despontar.

Rectilínea janela para o mar

uma vela acesa

um dia claro

uma rosa formosa

dolorosa

sempre. A amar.

 

               Teresa Bernardino

 

 

 

Fonte: Teresa Bernardino, Fragmentos-de-Sol, Lisboa, 1993, p. 21.

 

 

 

NA QUINTA DA PIEDADE O AMOR É 

 

Na Quinta da Piedade

há uma orquestra de açucenas,

há grilos agitando-se no canto,

há a Cartuxa contemplativa ao lado.

Aqui, nasce o nada feito de crepúsculo,

um grão minúsculo é todo o tempo,

o amor cresce até à eternidade.

Há laranjais vestindo-se de almas novas,

cedros a desenhar fantásticas formas,

e o espírito abrange o vasto horizonte.

Vemos também ternura em cada vinhedo;

a paz mora nas estrelas da noite,

em mágicas nuvens constroem altares.

Mais do que tudo isto!

Aqui a vida não tem sombras nem idade.

o amor vive aqui,

precisamente aqui, na Quinta da Piedade.

 

 

                              Teresa Ferrer Passos

 

 

 

Fonte: «Horizonte Luz», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 1998, p. 96.

 

 

 

A JESUS 

Entre as palhinhas deitado já sabes sorrir

Para os tristes para os puros e para os justos.

No momento de nascer cercado de animais...

A alegria dos gestos de um sonho de amor.

 

E sorriste… e sorriste como sorriste!

Anunciar o amor entre povos desavindos

Pequenino a sorrir!

E sorris… e sorris só a sonhar com o amor...

 

Amor Que palavra para oferecer a todos os seres

Com o sorriso mais fundo da vida

E a vida solta-se de ti com o amor lá  inscrito

 

                                         Teresa Ferrer Passos

 

 

Fonte: «Odes para um Novo Presépio», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Retábulo, Universitária Editora, Lisboa, 2002, p. 27.

 

 

 

 

OITAVO ANIVERSÁRIO DE NOIVADO

 
Impossível dádiva a transportar

os anos de um anel sem qualquer idade

ou com uma idade sem números a desenhá-la

 

E todo ele se inspira num sonho e é maravilha

de sol-poente de flores e de maresia

 

Com a lucidez da música de Bach

soa com um grito a sua forma

feita de um silêncio de árvore

 

 

Eis a escultura de uma vida sóbria e infinita

Eis a pintura de um amor fundo e invisível.

 

                           Teresa Ferrer Passos

 

 

 

Fonte: «Poema-Esposo», in Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Novo Álbum de Amor, Universitária Editora, Lisboa, 2005, p. 98.