ANTOLOGIA
de algumas obras publicadas
por
Teresa Ferrer Passos
«FRAGMENTOS-DE-SOL»
Poemas
Mulher
Mastro solitário. Celestial nau.
Brisa refrescante. Rocha sem idade.
Braço repousante. Água transparente.
Fúria de viver. Turbilhão de cidade.
Relâmpago
no céu mais negro
corola
de papoila abandonada
fogo ardente
na eterna madrugada
grito estridente
na noite cerrada.
Arma vibrante
ramo possante
luz de farol
bosque compacto
pórtico de quartzo
rua de marfim
catedral sem fim
.... folha verdejante a despontar.
Rectilínea janela para o mar
uma vela acesa
um dia claro
uma rosa formosa
dolorosa
sempre. A amar.
VENTO OCULTO
Esta chuva finíssima está a delir a esperança. Em fios
De gestos edifica uma nova madrugada no meu corpo
Sepultado na estrada sem luar. Peço um som de amor.
Uma sílaba qualquer de humana voz ou de animal
Ou de simples folha arrastada pelo vento.
Do próprio vento oculto. Invisível. A deixar-se
Amar no puro instante-alado do meu olhar extasiado.
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo), Fragmentos-de-Sol, Ed. Autor, Lisboa, 1993, pp. 21 e 22.
«ÁLBUM DE AMOR»
Poemas
O ANEL
AO ABRIGO DO VENTO ERGUE-SE O ANEL
É dourado de Sol e nele cintilam sete estrelas.
São infinitamente pequenas.
Lembram as sete esferas do céu infinito
A multiplicação dos pães
E o perdão sem limite.
Inscritas num círculo sem princípio ou fim
São sete palavras:
Símbolo e Sol e Água
E Mar e Vento
E Azenhas e Mar.
São sete letras:
A-M-O-R-S-A-L.
Último e primeiro.
Azenhas do Mar, 5/ Novembro de1993
AOS DEZANOVE DIAS...
Aos dezanove dias do mês de agosto
Sinto o gosto de uma esférica pauta
A lavrar em acta trinta meses.
É a consagração
Da décima parte das bodas de prata...
E vejo todas as preces abertas no teu retábulo.
E vejo todos os ditirambos no teu olhar.
Vejo mais ? Vejo que amar é uma oração ! ?
Vejo que é tudo tão visível na nossa comunhão ! ...
19 de Agosto / 1996
Fonte: Teresa Ferrer Passos e Fernando Henrique de Passos, Álbum de Amor, Universitária Editora, Colecção Universitária Poesia, Lisboa, 1998, (com Apresentação do poeta Carlos Carranca), Parte II - Horizonte Luz (por T.F.P.), pp. 67, 93.
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«EU, NUNO ÁLVARES»Romance
(Excerto)
Capítulo 1
Onde se trata do motivo que me levou a iniciar estas memórias e da forma como se revelou
«Pelo orifício estreito penetrava um luar aureolado de dourado sem temer amedrontar a noite solitária e o silêncio da minha cela. Despertei muito antes de ser chamado às orações, às vigílias e a todos os trabalhos que ocupavam o meu quotidiano, sempre idêntico e único. Nesse momento ainda não sabia se o inconsciente onírico não perturbava os meus pensamentos, se estava de facto acordado e se o que acabava de viver não era mais do que uma alucinação. A confusão de ideias, de imagens, de formas conhecidas e ignoradas, ocupava um lugar preponderante no meu cérebro, cansado de se interrogar sobre o significado daquelas vozes de silêncios prolongados ou sonoridade violenta: palavras que pareciam avisos celestiais entrecortadas por cânticos suaves onde o sublime mostrava não ter limite; figuras de aparência exuberante e colorida num azul-acinzentado, ou esverdeado, ou escarlate, não sabia bem definir.
Agora recordo melhor: vi uma personagem em plano sobranceiro de longas vestes drapeadas e leves. Era Elias, o profeta, aquele que foi arrebatado por um carro de fogo puxado por cavalos e desse modo subiu ao céu. A sua voz elevava-se acima das restantes que, à distância, repetiam em tom invocativo o meu nome. Em seguida, o enviado do Senhor transmitia-me a mensagem, razão da sua intervenção: "Nuno, não deixes que a tua vida seja motivo das curiosidades profanas de cronistas a quem só a guerra interessa. Dá aos vindouros uma ideia mais aproximada de ti próprio". Depois vi-o afastar-se do meu horizonte e já a grande distância a sua figura delineava-se com toda a precisão. O que eu escutara ressoava o meu espírito e uma vontade enorme de obedecer começou a perseguir-me. Repentinamente, aquela visão foi substituída pela de montanhas cobertas de neve, onde anjos vestidos de púrpura e sedas orientais cantavam maviosamente Gloria in excelsis Deo. Em seu redor, uma profusão de magnólias e ramos floridos de amendoeira salpicavam a neve que eles pisavam devagar. Maravilhado com espectáculo tão pouco comum para os meus olhos, escutei uma entoação de mulher (não tive a certeza) alertando-me de novo para o serviço que os Céus me exigiam ainda. A luz irradiante das suas formas difusas confundiam-na com a alvura da neve, o seu olhar era envolto num ténue e enigmático sorriso, os lábios carmesim e os cabelos de ouro identificavam-na com uma mulher. Mas só quando me chamou filius meus entendi claramente: era a Virgem Santíssima, aquela Mãe misericordiosa que sempre me alentara nas circunstâncias mais dolorosas da minha vida. A alegria de a reconhecer estonteava-me. Queria dirigir-lhe um agradecimento, dar-lhe graças por tamanha honra em me ter visitado naquela monástica morada. Mas a voz embargada pela comoção não me permitia balbuciar uma só sílaba. Começava a desesperar porque todas as minhas tentativas eram inúteis. Debatendo-me nessa luta cruel, perdi a inebriante visão e os meus olhos escancararam-se numa escuridão que reconheci ser a da minha cela. O sonho confundia-se com a realidade, não descortinando qual deles era mais autêntico. As palavras proféticas incidiam no meu espírito perturbado e perplexo por esta visão ou sonho ou milagrosa imagem do mundo divino.
Gravura do Mosteiro do Carmo em Lisboa,
anterior ao terramoto de 1755
Muitas vezes sonhara naquela casa comunitária com batalhas em que participara, com as vitórias sobre o castelhano inimigo da minha pátria, com a desventura de minha filha precocemente falecida, com as cartinhas tão ingénuas e ternas de minha neta, com os sofrimentos dos presos que, com frequência, visitava ou com algum enfermo a quem dera a última esperança de salvação. Havia pouco tempo, recordei, o meu sono não fora tranquilo, talvez por termos lido na última oração do dia uma passagem do livro do Êxodo, que sempre me exaltava. Tratava-se do diálogo do Senhor com Moisés a propósito da partida para a Terra Prometida: «O Senhor, Deus dos Hebreus, mandou-me a ti para dizer-te: "Deixa partir o meu povo para que me sirva no deserto" ».
Esta frase despertara em mim uma meditação mais prolongada. A partida do povo para a Terra prometida lembrava-me, quando eu detinha a espada e o poder persuasivo, o tempo em que os portugueses me procuravam para reconquistar a sua terra, ainda que à custa de muito esforço e sacrifício. O Alentejo, que percorri sem cessar, era esse deserto imenso, com as suas planícies a perder de vista, a sua aridez tórrida ou gélida, conforme as deslocações se processavam ao longo do Estio ou do Inverno. Tal como o povo hebraico, os Portugueses tiveram um condutor indeclinável na vontade e na confiança, sempre pronto a ouvir as aspirações e a tolerar algumas infidelidades. Foi o Mestre de Avis, hoje rei magnânimo e impulsionador da grandeza pátria. Trespassado por estes pensamentos, tive um sono inquieto e vibrante: imagens de moribundos gemendo num campo infindável de areias pálidas e escaldantes contracenavam com os juízos de combatentes sem sinceridade, onde o despeito ignorava a alegria da alma vitoriosa. Sem se mover, o inimigo defrontava com desdém e ironia o manto da derrota, que o percorria pelo corpo ensanguentado, e o espírito de desistência ensombrava. Entre uns e outros, eu olhava distante o festim dos vencedores, que não me reconheciam, e a revolta dos vencidos, que sentiam só a mim dever o infortunado fim.
A agitação em que este sonho, tido há algum tempo, me envolveu foi bem diversa daquela em que me sentia mergulhado. Estava confuso perante ideias pouco claras e difusas. Contudo, pressenti que algo ia mudar na minha vida, idêntica, no quotidiano, à espera da eternidade. Como sempre desejei servir, mais do que ser servido, não podia recusar um serviço não ditado pela vontade dos homens e da Nação, mas suscitado pela vontade divina.
Sempre pressentira, na minha existência, um olhar superior que velava por mim, que me protegia dos perigos defrontados, sem temor da morte, que me indicava os caminhos a trilhar, mesmo que fossem mal aceites pelos meus contemporâneos. Ao fim de dois anos passados no claustro de Nossa Senhora do Carmo, num monte sobranceiro à esplendorosa cidade de Lisboa, e cuja construção tão devotadamente concebi, talvez tivesse chegado o momento de realizar a missão de que o profeta inesperadamente me incumbia. O tempo que dedicara à defesa da Pátria, aos assuntos políticos e à erecção de monumentos em louvor de Deus e da Virgem fizera-me desprezar a anotação de factos, a conservação de discursos exortativos aos soldados improvisados ao longo dos caminhos, a preservação de cartas de companheiros ou a Leonor de Alvim. Somente os romances de cavalaria ou os livros de religião me acompanhavam, em tempos de paz ou na hora de soarem os clarins de guerra.
Ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Lisboa
O temor de não deixar um testemunho rigoroso, as falhas de memória de que já ia sofrendo, a ambiência monástica que me afastara das questões mais palpitantes dos últimos anos, a dúvida de me encontrar a mim próprio, sem a distância do outro, eram preocupações que acudiam ao meu espírito, após aquelas enigmáticas visões sobrenaturais. Ao afastar-me do século, tomara consciência da minha função puramente espiritual: as leitura bíblicas, os cânticos laudatórios da omnipotência divina, os actos litúrgicos diários, as penitências periódicas, a clausura meditativa, fonte de fortaleza, o misticismo carmelitano alimentado pela discussão da teologia contemplativa ou das ordens mendicantes, o auxílio aos desamparados e perseguidos, deixavam pouco tempo a quem julgava não ter outro serviço a cumprir neste mundo. Afinal, agora acreditava que algo mais era preciso para que a minha obrigação de filho de Deus estivesse concluída. Fora aquela figura simbólica e viva que mo exigia e eu não podia, apesar de velho e cansado, rejeitar a ordem vinda do Céu.
Assim comecei a escrever aos 15 dias do mês de Agosto do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1425. (...)
Fonte: Teresa Bernardino, Eu, Nuno Álvares, Publicações Europa-América, 1987, Capítulo 1.
«Ensaios Literários e Críticos»
(Excerto)
«A CRIAÇÃO DO MUNDO»
«Cada vida humana repete a obra da criação. O «paraíso» da existência fazemo-lo nós, cada um de nós. Cada homem é um mundo - mundo de hoje, de ontem e de amanhã. Mundo contraditório e complementar, verosímil e inverosímil, mundo fechado e aberto, fictício e real, mundo absurdo e inteligível, de fantasia e de realidade. É neste jogo da realidade e da ficção que se define a obra de Miguel Torga, que se afirma o homem e o escritor, usando a palavra na sua ambivalência intrínseca de simplicidade e de profundeza. Neste contexto do romance pragmático, existencial e imaginoso se delineia o genius de Miguel Torga. Capaz de transferir o divino para o humano e o humano para o divino, Torga constitui um caso sui generis da nossa literatura contemporânea. Sem sofismas fáceis, sem contornar a realidade, sem omitir o que lhe poderia ser prejudicial, assume na ficção, a autenticidade que confere não só à obra A Criação do Mundo, mas a toda a sua produção literária, um carisma universal. Escritor inconformado com a pátria sonhada do tamanho do mundo, mas, na realidade, do tamanho da «pequena casa lusitana», angustiado com o isolamento que as montanhas pirenaicas da península impõem aos seus habitantes, utiliza, com frequência, a expressão dialogada para mais directamente comunicar, integrar, vivificar a palavra escrita. De estilo sólido e fluente, profundo e flexível, Miguel Torga no V volume de A Criação do Mundo é também o escritor que faz história, mais, que assegura aos vindouros uma das mais sintomáticas e uma das mais significativas posições do tempo em que viveu. Fazendo romance, Miguel Torga é historiador do presente, sub-repticiamente, de um modo quase imperceptível, mas simultaneamente com uma grande força psicológica, com uma grande sensibilidade ao que outros banalizam, secundarizam ou mesmo se esquecem.
Mas para além das dimensões já entrevistas no escritor e que, são hoje raras, há ainda a dimensão ética que caracteriza cada pensamento que formula. Neles poderíamos encontrar toda uma filosofia portuguesa, pelo meio em que se insere, mas universal pela grandeza da sua mensagem.»
Fonte: Teresa Bernardino(ortónimo), Ensaios Literários e Críticos, Lisboa, Universitária Editora, 2001, pp.161-162.
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«ANUNCIAÇÃO»
Romance
(Excerto)
«UM RAMINHO DE JACINTOS»
«A transcendência descia aos vales e às vertentes dos precipícios, através do corpo da pequena Maria. Pela mágica muralha, a eleita ascenderia à montanha que Jesus ia subir. Tudo o que se estava a passar era uma teofania. Desde a Anunciação. Porque Jesus ia ser gerado no ventre da mulher para regenerar a vida com a arma do Amor e da Verdade. Mas não seria ela já, e desde a infância, idêntica a Deus?… Nestas interrogações difusas, a memória da mensagem do anjo ressurgia no coração de Maria. Quase a desfalecer de cansaço e ainda com a vibração gloriosa do tempo da Anunciação.
A imaginação dispersava-se em sucessivas visões oníricas. Depois, Maria sentia-se envolvida num delírio de entrega e de abandono. Um mar vastíssimo e luminoso morava no seu pensamento; miríades de inscrições lembrando a redenção salvadora tinham nela a aparência de pétalas de camélias vermelhas e brancas. De súbito, começou a ouvir sons vindo das suas entranhas. Era a voz muito frágil do menino. Encostava a cabeça sob o ventre insuflado de sua mãe. E Maria ouvia suaves palavras, mas ainda enigmáticas... “Devo ir ao Templo… os rabis discutem o Livro do Levítico, escrito pelos seus antepassados” dizia o pequenino, sem que Maria entendesse o que significavam aquelas palavras.
«Deves estar a falar da tua missão, meu filho, mas não tenho a certeza», disse Maria, sem pronunciar qualquer palavra. Temia que José ficasse ofendido com esta referência ao Templo. “Mãe, o céu é aqui, na terra, onde brotam as frágeis folhinhas e os frutos minúsculos muito verdes e duros e depois com o sol amarelecidos e de uma moleza aquosa”. «Que coisa maravilhosa é saber que gostas destas maravilhas que crescem ao nosso lado», disse Maria, cheia de alegria. “ Mãe, não imaginas como gosto de receber os beijos, as carícias com que me tocas no meu sangue, na película que me encobre… mas quero que saibas como será inútil procurares-me, quando não me encontrares”. «Como posso não te encontrar? porque me dizes isso?… mesmo agora, já vivo aterrorizada por saber que aqueles que não aceitarem a tua palavra, te odiarão, e deles receberás injúrias e te hão-de denunciar, condenarão os teus actos de amor como um crime, te perseguirão e depois serás humilhado no teu corpo e no teu espírito e julgado e perderás a vida muito cedo!» “Isso só acontecerá, minha Mãe, quando chegar a hora da redenção!” «Como me aterroriza pensar que tem de chegar essa hora, filho!» “A minha hora é um instante sem tempo que me espera e a ti também na plenitude da alegria do amor de todos os puros, de todos os santos”. «Meu coração arde, filho, com medo do teu martírio, um jovem tão belo… e sabes como aguardo o tempo de estar na tua serenidade!» “O futuro é, para ti, Mãe, uma profunda gruta e nele só pode morar a certeza!” «Oh, filho, como a tua sabedoria me ilumina sem cessar! as minhas entranhas de sangue e de humanidade, a envolver-te de amor, essa fidelidade sem limite, parece intensificar-se com o meu sofrimento! sem as minhas mãos para enxugar as tuas lágrimas… e nos teus olhos a imagem dos traidores… como me dói e me dá alegria pensar que romperás o meu ventre e logo te afastarás da minha intimidade de corpo! separar-me de ti um só instante é uma dor sem fim e ver-te neste mundo, onde passarás como cordeiro expiatório num tempo da Páscoa, vítima inocente da culpa!» “Nunca esqueças, mãe, que o meu nascimento é para cumprir uma grande missão! terei de discutir as sagradas escrituras com os senhores da lei, os rabis, e vou confundi-los… não se interrogam sobre os fundamentos do seu saber, e não serão perspicazes sobre o meu, muitas dúvidas os vão assaltar sobre o que lhes disser, não compreenderão os meus actos e deturparão as minhas palavras de Amor (…). Nesse momento, o pequenino calou-se. Então, Maria inclinou a cabeça sobre o ventre, num cansaço esculpido de contentamentos. “Vejo como estás contente, mãe!” disse. Ria-se muito e parecia dar pulos impetuosos dentro dela. O seu riso era já muito menos débil e mais nítido. Então, Maria riu-se também. E começou a olhá-lo sem o ver. Depois lembrou-se das palavras que tinham dado origem àquela conversa… Que contentamento não teria Maria, só de imaginar o seu menino ainda por nascer e já a pronunciar as palavras que soam mais alto que as dos profetas Oseias ou Jeremias.»
Fonte: Teresa Bernardino(ortónimo), Anunciação, Lisboa, Universitária Editora, 2003, pp.167.
«SOCIEDADE E ATITUDES MENTAIS EM PORTUGAL»
1777-1810
(Excertos)
A Lei
«(...) a justiça não abrangia todos com iguais castigos, pois um Fidalgo de solar não podia ser preso senão por feitos em que merecesse "morrer morte natural ou civil" e um juiz ou um cavaleiro não podiam ser vítimas de torturas; por outro lado, se alguém arrenegasse ou descresse de Deus pagaria 4.000 réis e era degredado um ano para África, se fosse cavaleiro ou escudeiro, enquanto se fosse peão recebia "30 açoutes ao pé do Pelourinho com baraço e pregão e pagaria 2.000 réis" (...)»
A Mulher
«(...) Vivendo sempre na dependência do pai ou do marido, não tinha outro objectivo que não fosse o casamento. O assunto era olhado como um negócio, em que os interesses das famílias eram prioritários. Pensando que se libertavam da tutela paterna caiam em outra tutela. Mas era preciso cumprir a missão que Deus lhes dera: ter filhos para não deixar a família sem descendência. Como diziam os livros piedosos e as meditações , como repetiam os padres nos sermões dominicais, a sua função era relativa à procriação. (...) A mulher continuava a ser o símbolo do pecado, da tentação, do demónio, como na Idade Média (...).»
Educação Infantil
«(...) Lê-se num Manual de Piedosas Meditações, datado de 1780: " O tempo de infância e puerícia é mais vida de brutos, que de homens; porque nela não se obra nem se faz coisa alguma digna de um homem». E acrescenta: "Que coisa é o homem em sua infância senão uma pequena besta privada da razão só com a aparência da figura humana? Que coisa é a mocidade senão um cavalo indómito e desenfreado?". O pouco valor dado ao tempo à infância está aqui bem testemunhado (...) Mas a "familiaridade dos dois sexos" constituía talvez a mais importante questão na educação das crianças (...).»
Suspeitas e denúncias
«(...) A permissividade na acusação é um fenómeno que acompanha o processo 1807-1810. Prática secularmente prosseguida, devido ao difamatório e arbitrário processamento inquisitorial, apenas se altera nas motivações que, de ordem religiosa, passam a de ordem patriótica. (...) Todos são olhados como suspeitos, porque todos podiam ter colaborado ou colaborar ainda com o invasor. A acusação converteu-se numa arma não só dos que temiam os "afrancesados" como dos que o eram. (...) As denúncias de simpatizantes da maçonaria deu azo a numerosas prisões e condenações ao exílio. (...) A atitude persecutória, a acção denunciante não eram formas novas produzidas pela crise de identidade ao longo dos anos 1807 a 1810. De facto, tratava-se de uma estrutura mental que se desenvolvera desde a segunda metade do século XVI, ou seja, depois do estabelecimento da Inquisição em Portugal. (...) Uma inconsistente denúncia bastava para conduzir aos seus cárceres milhares de vítimas inocentes, alvos de malquerenças e do espírito intriguista dos que estavam sempre prontos para incriminar os vizinhos. (...)»
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo), Sociedade e Atitudes Mentais em Portugal – 1777-1810, Lisboa, Imprensa Nacional, Colecção Temas Portugueses, 1986, pp.71, 109-110, 112-113, 216, 219 e 220.
«UNIVERSO»
Poemas
EXPANSÃO UNIVERSAL
Expansão enérgico em sagração...
E um fogo sem se ver estremece.
É manhã sideral é hora primeira
na universal vontade de cada núcleo.
É calor em nuvens de compacta forma
a crescer como invisíveis nuvens.
É agora ou nunca toda a vida
Luz imensa em exteriorização...
Em focos sem conta divagam emergem
em todas as dimensões descobertas.
Plenitude vaga confusa desejosa
em busca de mais núcleos átomos protões
perdidos em colisões desastrosas
a produzirem a inevitável salvação.
Sementes de vida em comunhão...
Na intensidade de ímpetos sufocados
em brasas labaredas crepitantes.
Infinita via para existir mais!
Construção de matéria extenuada
em arrefecidas esferas geradoras
da novidade efémera ou prolongada.
Razões obscuras em vocação...
Liberdade sem limite em arremetidas
visíveis invisíveis ou só escuras
em loucas armadilhas de neutrões
fazendo em cadinhos de alegria
feliz contentamento de uniões
– solitários em mil milhões de biliões.
A lei dos números em turbilhão...
Edifícios de estrelas acasteladas
planetas em ebulição e vertigem
asteróides satélites anéis vibrantes
desenhos informes esculpidos
na rochosa nave de finíssima poeira
acumulando-se à espera de fecunda hora.
Milhões de biliões em expansão...
Entre tempo antes e depois do tempo
as horas não contam nada são.
Os anos são turva nevoenta ideia
os séculos não são a mínima expressão.
É a imensidão do tempo todo
sem passado sem presente sem futuro.
VIDA
E do nada... a vida a germinar...
A ser sentido secreto
A ser onda gigantesca
A ser triunfal vontade.
Nesse nada adormecido...
O despertar é a vida –
A sulcar espaços desmedidos
Sem jamais hesitar!
E o nada ansioso de paixão
Na espacial liberdade
A recusar o não-ser. A repelir
Sem o nada. Sem retorno. Remissão...
Oh letárgico estremecimento
Potência em hibernação
Hipnose indiferente
Na morada da anti-vida.
Sendo centelha de vida sem visível expressão...
...Mas chega a hora da catártica oração!
E abrem-se as portas da não-vida...
...Para a vida – Visionária. Aventureira...
Loucas gerações despontam. Genes aos
Milhões de milhões... a sonhar entre
Escolhas aos biliões de biliões...
Entre veredas de extravagantes uniões
Sem correntes
Sem grades
Sem prisões!
E os átomos as moléculas
As células em turbilhão
Colidem nos encontros
Os abismos penetram
Irrompem na harmonia
De atrevimentos audazes
Edificam um Universo em hinos
De misteriosos desígnios...
...Ah como é vida a vida do pacato riacho
Do rouxinol do bosque das marítimas algas...
Sem deixar de ser vida a vida da Orion brilhante
De Plutão Mercúrio Saturno... Do intrépito cometa.
...Ah como é vida a vida das escaldantes areias
Dos coloridos pássaros. Da melancólica montanha...
Sem deixar de ser vida a vida de cada galáxia.
De mundos desconhecidos. De seres ignorados.
...Ah como é vida a vida da borboleta dos campos.
Do alecrim perfumado. Do humano pensamento...
Sem deixar de ser vida a vida de um outro cosmos
De desconcertante invenção...
De artística compleição...
Vida –
Adversidade. Acaso.
Complexa teia.
Labiríntica proeza.
Sublime poema.
Palavra mágica
Em fugidia asa...
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo), Universo (Com uma "Reflexão sobre a analogia criadora" por António Cândido Franco), Ed. Autor, Lisboa, 1991, pp. 15-16 e 56-58.
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«O SEGREDO DE ANA PLÁCIDO»
Romance
(Excerto)
«2º DIA»
Camilo Castelo Branco
«quando Henriqueta Elisa lançou um jornal literário, José Vieira de Castro anunciava na sua Biografia de Camilo Castelo Branco, a publicação de um livro de versos de Ana Augusta. Procuro-o incessantemente e não o encontro. Vejo-o só na minha imaginação. Na febre de mim. E deparo com o Almanach das lembranças de Catarina Balsemão. Tropeço nas suas folhas e leio os seus versos. Palavras vibrantes, plenas de musicalidade, de rimas ricas. Audácia e emoção nesta poética do amor levado ao extremo que é a adoração. Apesar do amado ser o motivo do seu sofrimento, esse penar é ainda a razão da sua felicidade, da sua sorte ditosa e impossível noutras condições ou mesmo que houvesse a possibilidade de fugir à dependência. Não há verdadeiro amor se excluirmos a dependência. Ela nos torna as pessoas mais livres do mundo. O amor autêntico é toda uma limitação que o outro nos provoca e se essa limitação da nossa liberdade não existir o amor é apenas ou somente um simulacro. Uma redundância perecível a cada instante de dádiva. Porque a dádiva é entrega de uma parte de si ao tu que se tornou o eu mais largo e complexo. Sem a sujeição ao tu ou seja sem o cativeiro de amor, o eu perde a dimensão da relação em que impera o eros que comanda a essência mais significante daquele que sabe. Amar. Perdidamente...
e eu que não soube o que era amar. Apenas perfis passageiros a percorrerem as minhas alucinações de náufrago. Esgotei-me no meu corpo em sensações vagas e bolorentas. A esculpir mulheres sensuais para alimentarem as minhas enfermidades atravessei horizontes parcos e estéreis que me repugnam até à exaustão. Mas não consigo escapar-lhes. Sou escravo do meu corpo. O tirano exerce sobre o meu espírito um domínio incontrolável. Cedo-lhe sempre e cada vez lhe sou mais submisso.
Camilo, Ana Plácido e o filho Jorge
sou um vazio. Um sem sentido. Sou a perdição. E como me deixo seduzir ao reler o Amor de Perdição... sufoco de ira e revolta e morte de amanhã. Só esta palavra crime interiorizada nas lágrimas que dilaceram as minhas vísceras até ao gigantismo fazem aplacar as minhas veias saturadas as minhas artérias revoltas o inconformismo das magnéticas ondas do meu cérebro inchado de pensamento... inconformado giro silencioso entre cruezas irracionais e invisíveis ou a fome insaciável de conquistar uma mulher. Invento-a nos desenhos com que encho os meus cadernos abandonados às máscaras caricaturais. Atulhados com os meus revezes neles assoma só a poeira dos córregos estreitos e os fios de prumo onde coloco os mochos e os caleidoscópios assexuados nas sonatas traçadas com o esperma dos meus ossos a estalarem de dor e uivos de distância no medo da luz intensa e violadora de toda a intimidade em que movo as minhas desventuras cobertas de gotas de pecado a rondar o inexcedível céu azul dócil e a esvoaçar os afectos sem a mobilidade das fragas esmagadas pelos oceanos precursores do ritmo do órgão penitencial com a pertinência das horas agrestes de secura aridez e vertiginosa arma tão frágil como um jogo de contas vítreas e luminosas com Ana e Camilo abraçados nos passeios do outeiro em que os vejo depois da meia-noite a darem o braço nu das bandeiras incendiadas durante os dias de imenso tédio silêncio e vergonha.
A casa e quinta em S. Miguel de Seide
terrível é o amor no momento da decepção. Levanto-me cambaleante com uma acidez na língua como nunca senti. Procuro um livro que me fale de Ana. Selecciono. Chego à segunda prateleira do lado esquerdo sétimo volume de lombada castanha. É o Diário de Guiomar Torresão. Quantas vezes o terá lido Ana... na sua sagacidade o desalento morava. Como devia sentir-se irmã espiritual dessa mulher de olhar felino e porte magro. Escuto a voz de Ana. Lê a Torresão com a atenção de uma adolescente ingénua e sem perspicácia.»
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo) O Segredo de Ana Plácido, Lisboa, 2ª edição (edição revista pela autora), Editora Vega, 2000, pp.155-157 (1ª edição[a autora assinou Teresa Ferrer Passos], Edições Gazeta de Poesia, 1995) .
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«O GRÃO DE AREIA»
Contos
(Excerto)
«AMANHû
«A solidão envolvia o espírito do Mar como uma serpente de asfixiante ondulação. Quase não podia respirar. Umas vezes, ficava ofegante, num cansaço inexplicável, cheio de sofrimento. Outras, a sua respiração era tão ténue que ele mesmo duvidava da sua existência. Quando as noites eram chuvosas e os relâmpagos iluminavam as sombrias grutas do seu interior, as nuvens espessas viam brotar lágrimas do seu olhar extasiado, a reflectir aquele espírito esgotado de uma vaga saudade impenitente. Era o choro da desdita, mascarando-se de chuva agreste, penetrando as suas profundezas. Ondulando com violência brusca, revoltava-se contra o destino adverso de o colocar frente à tempestade avassaladora, quem sabe se a pretender extinguir a sua existência solitária.
A solidão não o enfraquecia. Dilacerava-o. Aprisionava-o. Mas, ao mesmo tempo, criava nele energias desconhecidas, poderes fantásticos, vontades indomáveis. E uma saudade emergia sempre, como um delírio tenebroso a expandir-se na luz de uma eterna esperança. Saudade! Essa voz melodiosa a sussurrar gritos de ousadia, essa lágrima vertendo salgados espaços sem fronteiras, essas ondas de ausência sem passado, sôfregas de futuro.
Meditava, parecendo vergado pelo peso ciclópico de Titãs: «A que distância estou de mim, tendo tudo no meu reino, além e aquém! Generosa divindade me concebeu como a perfeita criatura! Tudo vive porque eu vivo! De tudo sou o centro e o sustentáculo. Miro-me nas águas de mim próprio, porque tudo existe, enquanto a vida pulsar neste coração salino e o meu espírito vegetal perpetuar os mundos abismais das cristalinas águas da ausência. Mas esta dor atroz, a penetrar como seta veloz e implacável no âmago do meu ser. Oh fatalidade, oh desventura amarga e constante, porque me persegues? Porque afrontas meu espírito sem uma trégua de tempo piedoso, sem uma ausência dessa ausência. És cáustica, atordoante, por vezes, gélida, oh obscura, oh misteriosa na minha interioridade plena de tudo! Quero lembrar-me e não posso! Não há ainda lembrança, a saudosa lembrança. É a Idade do Ouro! E sofro porque, sem memória, não sofro! Guardo tesouros imortais nesta arca marítima. Nada existe fora dela. A beleza, o tempo, a vida, o espírito, todos imortais, nas entranhas do meu ser infinito. Sinto-me na mansão perdida, como se nada possuísse; vazio, vago, ausente e com uma tristeza a crescer em castelos de vagas alterosas, num atropelo sem fim, num esgotamento».
Assim o Mar passava o tempo na Idade em que o tempo não passa. Contudo, as horas pareciam-lhe dias e os dias assemelhavam-se a anos. Que demora, que prolongada espera... E o espírito sacudia a mágoa no excelso marulhar das envolventes águas. Até que estranha sinfonia se escutou. Desusada, inaudita, única. Algo emergia de um silêncio sepulcral. Algo estremecia o profundo num fragor arrepiante. Desintegração do vigoroso Mar? Perturbação da sua alma solitária em demasia? Ou um novo tempo, com um novo mundo, nascia?»
Fonte: Teresa Ferrer Passos, "Amanhã", O Grão de Areia (contos), Lisboa, Universitária Editora, 1996, pp.200-202.
«A REVOLUÇÃO PORTUGUESA DE 1383-1385»
«(...) Um dos factores mais importantes para a consolidação da identidade portuguesa foi a vulgarização, desde os meados do século XIII, do português em muitos documentos públicos e privados. No tempo de D. Dinis (princípios do século XIV) tornou-se a língua oficial, substituindo o latim em todos os diplomas da chancelaria. (...) Paralelamente, a tradução de obras estrangeiras para português, intensificada nas primeiras décadas do século XIV, desenvolveu o amor à língua da terra-mãe e a sua expansão como idioma que se libertava dos limites da oralidade: "os primeiros textos em português dos princípios do século XIII são quase traduções literais do substrato latino". Em 1290, a criação do Estudo Geral (estabelecido em Coimbra de 1354 a 1377) constituiu outro significativo avanço para a afirmação da cultura portuguesa. Esta instituição contribuiu para a laicização da cultura, que deixou de ser monopólio dos meios eclesiásticos. Os mosteiros já não eram os únicos centros com bibliotecas. (...) O Amadis de Gaula teria sido dos romances mais divulgados e apreciados no Portugal do século XIV, antes da crise de 1383 (...)»
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo), A Revolução Portuguesa de 1383-1385, Publicações Europa-América, Colecção Saber, 1984, pp.82-83.
«PLANETA JOYCE 8»
Drama-romance
(Excerto)
Aprisionar o som. Controlar a luz. O domínio do movimento.
A força das palavras cria-se num diálogo infinito.
Seres inanimados vivem na sua identidade de projecto.
Os habitantes do universo crescem na acção.
Há um futuro imparável a controlá-los.
Há um futuro na palavra que os faz vibrar de realidade.
Uma agitação mental circula e dá sentido à sua existência.
Num caos oculto toda a matéria se expande.
Em cada palavra há um renascimento mágico.
Em cada pensamento acende-se uma proclamação de vida.
..........................
Estrela 4000 b - Ah! Sabes que vislumbro algo como um ecrã… há palavras a vaguearem lentamente e a inscreverem-se em imagens velozes e, ao mesmo tempo, sem movimento.
Carta C2 - Eu sou tão pequenina e a conseguir ouvir a uma tal distância…falas em imagens sem qualquer movimento?
Estrela 4000 b - Não sei… pressinto um som inaudível.
Carta C2 - A mim atravessam-me vários sons. Parece que há ainda um conhecimento em busca de si próprio e sinais minúsculos encadeiam-se, de modo labiríntico, para o descobrir.
Estrela 4000 b- Há uma linguagem significante à procura de respostas.
Carta C2 - E uma incerteza audaz dilata-se a todos os que procuram a diferença, o inesperado ou o idêntico...
Estrela 4000 b - Antes de tudo o idêntico, mas também a diversidade daquilo que possui uma integridade de ser.
Tempo 01 - Dentro de mim só há palavras… palavras que existem, sem tocar nem mesmo ao de leve, o sentido ou os sentidos de tantas ideias encobertas de simbolismo… cada palavra sem se aperceber que existe, como uma identidade única para ser oferecida a quem a recebe.
Estrela 4000 b - O que fazem as palavras, afinal?
Carta C2 – As palavras, ah, as palavras… como são fugazes nos sons encobertos em imagem…as palavras anunciam…
Estrela 4000 b – Anunciar… que palavra!
Carta C2 – E não imaginas quantas palavras estão inscritas em cada palavra…
(...)
Estrela 4000 b - …e sem sonoridades a abafarem-lhe os sons da novidade em palavras nunca ditas, em palavras incomunicadas e a manterem-se intactas ou invioláveis!
Carta C2 - …intactas na hora da expressão do som ou da presença do tempo certo, certo, que digo eu… na verdade, todo feito de tantas incertezas!
Tempo 01 - Que multidão espera em frente do ecrã enfeitiçado, todo ele a querer significar o espanto de infinitas palavras!
Carta C2 - Essa multidão separada pelos muros do individualismo parece querer entrar num grande templo, ansiosa por orar a deuses ou a um grande deus que nunca viu, mas por quem a palavra clama, há muito tempo…
Estrela 4000 b - Quanto medo de nós próprios se acumulou… sim, de nós, porque nós é que temos medo de nós, sobretudo agora, nós a sermos palavras…
Tempo 01 - Como é difícil ver o interior do nosso ser já dissipado na nuvem das distâncias percorridas ao longo da imobilidade de um lugar qualquer.
Carta C2 - E eu consigo ver-me nas palavras como se me visse num espelho.
Tempo 01 - Repara que tu também és tempo, tempo projectado num espelho a desvendar a mensagem de um grande fonema…
Estrela 4000 b - Palavras, sílabas, vogais, a edificar o pensamento, como se pensar fosse uma eternidade, e esse fosse o segredo da palavra ainda a descobrir vida nos seres humanos…
Tempo 01 - Não, não acredito nesse poder omnipotente da palavra, até capaz de esperar uma eternidade sem tempo! penso que tudo é tempo e o tempo tem muitas escalas, digo eu que finitas, não infinitas.
Estrela 4000 b - As tuas ideias são discutíveis! como és dogmático!! acho que o tempo é, antes de tudo um silêncio infinito de palavras.
Carta C2 - Outra vez a falares do silêncio… há milhões de anos que o vives… mas lembra-te que, neste ecrã onde penetraste, o silêncio é um absurdo.
Estrela 4000 b - O ecrã é a magia da imagem toda feita de palavras escritas…
Fonte: Teresa Ferrer Passos, Planeta Joyce 8 − drama-romance publicado, na íntegra, no site internético «Harmonia do Mundo», em 2007 impressos 100 exemplares (desde 2008, ficaram online as páginas 17, 19 e 22); a 2ª versão, escrita em 2008, integra-se na trilogia inédita Na Cidade dos Lírios Pisados.
«ASAS NO POENTE»
Poemas
BRASIL
Ao Embaixador Dário Castro Alves
Nação, geografia, Álvares Cabral.
Rumo certo no incerto Atlântico da certeza
Portugueses foram, brasileiros ficaram.
Florestas sem fim penetraram
Trabalhos mil defrontaram
Forças perderam e ganharam.
Portugueses foram, brasileiros ficaram.
Civilização levaram e receberam
Cristo mostraram e foi aceite
Sensibilidade tinham, mas aumentaram.
Por lá ficaram e construíram
Com homem íncola a grande Pátria
Que ao mundo revelou quanto valia
No imenso grito do Ipiranga...
Portugueses foram, brasileiros ficaram.
(Por ocasião da Data Nacional do Brasil - 7 / 9 / 1983)
TEMPOS DE PAPEL
Na lembrança frágil de uns papéis
esculpo a herança de tantos seres...
Herança sem limite e percursora
de desejos rasgados na memória,
sem som, sem visão de firmamento.
Tempos construídos num areal sem fim,
sem largos horizontes, em promontórios
de ventura e desventura.
Tempos desfeitos por outros tempos,
encerrados em folhas carcomidas,
com razões e sem razões de abismo vário,
com projectos de curta vida
buscando imortalidade
numa mortal folha de papel.
Fonte: Teresa Bernardino (ortónimo), Asas no Poente, Ed. de Autor, Lisboa, 1987, pp.83,70.

«CARTA-MEMÓRIA À MÃE»
por
Teresa Bernardino (ortónimo)
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«Mãe*
(...) Não podias ver-me na angústia dos dias cobertos de cinza sem calor. Dias que só tu eras capaz de iluminar com a palavra, o sorriso, o olhar doce. Doce como o mel mais puro dos deuses mais exigentes. Tu transmitias doçura mesmo quando choravas e as lágrimas ficavam encovadas, inertes, como se não quisessem morrer na tua face sequiosa de amor. (...)
(...) O Director da enfermaria ainda não chegara e, sem a sua presença não podias entrar. À porta do Hospital estavas... Inesperadamente uma médica abeirou-se de mim. Contei-lhe o que se pass